De dentro do Reino do Meio

(entre sair do jornal, arrumar tudo para ir embora, viajar e depois chegar no destino, lá se iam dois meses sem escrever nada. É tempo demais. Por isso, enquanto ainda não chega a fase de fazer jornalismo mesmo, era hora de tirar todas as teias de aranha deste abandonado sítio e voltar a praticar alguma coisa. Por que não, afinal? Aos poucos, a casa vai sendo arrumada. Espero que alguém goste)

É impossível resumir um país em apenas uma cidade, e portanto não é da China que este texto trata. Mas, sim, de como é a China em Dongguan: uma cidade de 8 milhões de habitantes, absurdamente grande para os padrões de quem saiu de Novo Hamburgo, apenas o sétimo centro urbano mais populoso do Reino do Meio. Um lugar que me permitiu, pelas peculiaridades da vida, conhecer uma realidade que só é possível de se viver quando se fica bastante tempo num lugar, vivendo, morando, vendo a vida sem a pressa de precisar correr para conhecer tudo de uma só vez.
Dongguan, a minha representação de China, é um dos lugares mais contrastantes, hipócritas, bonitos e legais que existem.

O contraste – e a hipocrisia, sua prima distante – me parecem ser marcas registradas deste país tão grande. Porque é impressionante demais ver a ordem de tudo, as praças lindas, o comportamento em geral ordeiro e respeitoso da população, e depois perceber que isso funciona para o que é público. A imagem que a China passa é de um imenso respeito com tudo que for de todos, e de um desprezo geral por qualquer tipo de individualidade. Os parques são impecáveis de tão bem cuidados; os apartamentos, em geral, são deixados aos pedaços. Não se tem notícia, tirando alguns fatos isolados, de qualquer tipo de violência em roubos ou coisas do gênero; também, não se tem notícia de nada: não se vê jornal nem revista nas ruas, nem mesmo programas de notícias, ao menos nos espaços abertos. E o furto come solto por aqui.

Mas é a hipocrisia a parte mais marcante do que se vê da China em Dongguan. Porque, ao mesmo tempo que desprezam o indivíduo e mostram um orgulho tremendo da sua história – o que faz sentido –, os chineses daqui buscam cava vez mais ser parecidos com o que de mais extremo existe no Ocidente. Porque não basta ter um Porsche: ainda tem que pintar ele com algum verde-metálico como se via nos Chevette tubarão de 1976, e andar a milhão com o carro de uma maneira tão bárbara que é impossível descrever. É preciso se comportar e se vestir de forma cada vez mais ocidentalizada, deixando apenas a aparência e os olhos puxados como prova de que não se está em qualquer outro lugar do mundo. A hipocrisia de um país que regulamenta com mão de ferro o que se diz, se escreve e se mostra, que proíbe o acesso a Facebook e Twitter. Só que todo mundo vê Facebook e Twitter, todo mundo faz compras no 7-Eleven, na HM, na Zara, e pode escolher entre um dos 35 bancos diferentes apenas nesta cidade para abrir a sua conta, o que não me parece o melhor exemplo de socialismo aplicado na prática.

O capitalismo aqui é feroz, e tem os mesmos benefícios e malefícios que em qualquer lugar do mundo. A gama de coisas que existem é tão grande que, sim, os preços são realmente bons em muitas coisas. Mas os chineses sabem segregar quem for diferente tão bem – ou até melhor – que o cara mais higienista do Ocidente. E, cada vez mais, eles fazem isso baseado no mesmo materialismo que nós já estamos acostumados.

Mas, mais do que tudo, este é um lugar incrível. A chance de passar um mês em uma cidade desconhecida, mas na casa de alguém que mora aqui há três anos e conhece cada canto do lugar – e este alguém ainda ser teu pai – dá toda uma perspectiva nova de uma cidade, que nenhum tipo de turismo no mundo é capaz de reproduzir. E faz com que, depois de duas semanas, o trânsito já nem pareça tão maluco, e que até mesmo tu consiga atravessar um cruzamento sem nenhuma ordem de bicicleta, depois de 15 anos sem nem subir num selim. Faz com que tu caminhe pelas ruas procurando os exemplos daquela China idealista, dos caras de túnica e os joelhos dobrados para fora nas bicicletas, e ainda ache alguns poucos resistentes. E, mais importante de tudo, faz com que a gente tenha tempo para, depois do entusiasmo dos primeiros dias e do choque que vem na sequência, do ‘oh, como eles são diferentes e meio bárbaros’, aprender a respeitar e admirar cada um dos traços, dos contrastes, das hipocrisias, para achar tudo muito legal.

Para quem está ainda no caminho de morar fora de casa e buscar toda uma rotina de vida em outro país, é muito bom poder contar com uma experiência como essa logo na véspera de ir.

E se Dongguan já é tudo isso e é tão massa, mal posso esperar para, um dia, ver como é o resto da China.

Xiexie,
Chico Luz