Capitão

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A última vez que eu havia pensado no Fernandão sendo apenas o cidadão Fernando Lúcio da Costa foi há quase dez anos. Como muitos já disseram desde este sábado, ele chegou ao Internacional no dia 17 de junho de 2004, e eu lembro que, ao ser perguntado por um colega colorado no trabalho de então, disse apenas que achava que ele não era o centroavante que o time buscava – mas que era um bom nome. Eu não podia ter feito uma previsão mais errada.

Ao contrário de quase todos os colorados, eu não acordei com a notícia de que o Fernandão havia morrido. A 15 mil quilômetros do Beira-Rio, o sábado já ia longe quando, pelas 18 horas, recebi a mensagem de um amigo dizendo que ele havia sofrido o acidente de helicóptero. Não sei dizer ainda se o fato de estar longe de casa, e de saber de tudo no final de uma tarde, tornou as coisas mais fáceis ou mais difíceis. Sei que tudo parece absurdo demais depois de 36 horas.

Eu tenho uma relação bem particular e peculiar com o Internacional. É algo meio doentio, que foi se amenizando ao longo dos últimos anos em função de duas coisas: do trabalho, que me obrigou a saber deixar o coloradismo de lado em certos momentos, e do que o Fernandão fez pelo clube da minha vida nos quatro anos em que jogou de vermelho. Desde o segundo toque na bola (eu tenho certeza que ele deu um passe lateral antes de marcar o gol 1000) com a camisa do Inter, desde as primeiras entrevistas. Eu nunca mais fui o mesmo desde 16 de agosto de 2006, e este dia só aconteceu porque ele era o capitão, porque ele guiou o Inter até ali, porque ele fez o primeiro gol na goleira que estava a 150 metros de distância e cabeceou, correu para o rebote e fez um centro perfeito para o Tinga no gol do título, na minha frente, o maior momento que eu já vivi em um estádio de futebol.

Essa situação minha com o Inter, de viver o clube de uma forma única – como acontece com qualquer torcedor, que cada um tem o seu jeito de saber aproveitar o amor pelo seu clube –, tinha chegado ali ao auge. Nada antes daquilo se comparava; nada depois daquilo seria parecido. Nem o Mundial, nem a segunda Libertadores, nem as Sul-Americanas, os Gre-Nais, o título no Olímpico, nada. Nem D’Alessandro e nem ninguém. Fernandão, um bom jogador, mas nada de excepcional, foi o maior símbolo do Inter da minha vida.

E este símbolo, esse cara que não teve medo de se expor – que precisou ser substituído em uma final de Mundial de Clubes, que as vezes fazia uma sequência de jogos sem brilho porque era o capitão e, ora essa, um capitão nunca deixa o time, que foi diretor e depois treinador –, voltou a ser humano neste dia 7 de junho. A morte torna todos iguais, ídolos e admiradores, vencedores e vencidos, humanos e heróis. O que fica de diferente é o que se fez durante a vida. E nisso, Fernandão vai durar para sempre.

Obrigado por tudo, capitão.

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