O que eu acho de tudo isso que está aí

(A melhor coisa do mundo é esperar um tempo para falar de determinados assuntos. Assim ninguém mais presta atenção em nada, a poeira já baixou, e já tivemos tempo até de pensar no que realmente aconteceu. Então vamos lá)

Na minha cabeça, a Patrícia Moreira não merecia ser punida criminalmente pelo que falou/fez. Nem ela nem os outros idiotas racistas estúpidos que acharam uma boa ideia chamar um negro de macaco. Sou, acima de tudo, um cara que respeita a liberdade individual de cada um se manifestar como quiser – e principalmente de ser um idiota racista estúpido. Quando as pessoas se manifestam assim, seja em um estádio, em redes sociais, na minha frente, na TV, eu me convenço de que são idiotas racistas estúpidos, que merecem apenas o desprezo (meu e de forma geral).

O brabo é entender isso. A relativização do que Patrícia e seus companheiros de arquibancada fizeram ganhou contornos tão absurdos, por detalhes tão insignificantes, que chega a ser engraçado. Gremistas inteligentes, grandes amigos e pessoas que eu não conheço mas respeito muito, ficaram muito preocupados com a generalização que iam fazer do clube. Depois, lamentaram muito que a Patrícia Moreira estava sendo linchada, coitadinha. E, por fim, se calaram enquanto ela dava entrevista coletiva e aparecia no programa da Fátima Bernardes.

Mas não foram só os gremistas. O Rio Grande do Sul é um ótimo retrato do Brasil que se acha muito bom (sem na verdade ser), e colorados tiveram posturas que foram das lamentáveis comemorações – sim, teve gente CELEBRANDO o fato de um goleiro negro ser agredido de forma racista porque o agressor era gremista – à curiosa postura de “coitadinha da guria”.

É curioso que, no momento, ninguém mais fala do Aranha. Ou pior: quando falam, é pra dizer que ele é um idiota por dizer que existe muito racismo no Rio Grande do Sul, ou por não querer conhecer a guria que o chamou de macaco. Para baluartes do que se convém chamar de cultura gaúcha, Aranha foi “um escroto”.

Se tem uma coisa que isso mostra bem é que o racismo ainda é considerado um crime menor. Afinal, qual é o mal de ser xingado, não é mesmo? É isso que todo mundo pensa. Afinal, somos xingados o tempo todo, e ninguém se sente menor por isso. Não é?

Não. Não, não, mil vezes não.

O racismo no Brasil é algo tão escancarado que já faz parte do método de funcionamento da sociedade. E nós, de forma geral, não percebemos isso: precisa vir alguém de fora para notar o quanto somos disfuncionais para tratar quem é diferente do meio em que vivemos. É assim com quem é de outra cor, é assim com quem é de outra orientação sexual… é assim com qualquer pessoa que não faça parte do mesmo status social que nós.

A prova de que o racismo não é levado muito a sério aqui? Veja se tu, ou teus amigos, acham que “bandido bom é bandido morto”. Agora veja quais destas pessoas acha que a Patícia Moreira está sendo “massacrada”. Veja também quem destes defende a prisão imediata de sonegadores, de quem frauda documentos, de quem usa receita médica falsa, de quem adultera leite. A maioria acha que bandido bom é bandido morto, desde que não seja alguém que eu conheça ou que faça parte do meu meio, não é mesmo?

“Ah mas eu já fui chamado de alemão/gringo/palmito ou qualquer outra merda e nunca me senti prejudicado por isso” Meu cala a boca.

Tu quer entender por que isso não é racismo, mas chamar um negro de macaco é? Então olha isso aqui

O dia em que algo assim acontecer contigo e um policial disser “parado aí, alemão!”, aí sim podemos dizer que houve preconceito. Mas acho muito complicado que isso aconteça, hein.

De forma geral, é preciso um trabalho externo para entendermos que a sociedade é, sim, racista, homofóbica, machista. Eu sou um cara branco, heterossexual, de classe média alta. Sempre tive condições de estudar bem, de conhecer o mundo, e tentei usar isso da melhor maneira possível. Já fui partidário da ideia de que é tudo uma questão de vontade, e também já achei que bandido tinha mais é que se fuder.

Mas bastaram poucas experiências com gente que veio de outros ambientes, diferentes daquilo que eu estava acostumado desde pequeno, para ver o quanto a minha visão era limitada. Por isso, percebi que PRECISAVA mudar. Que eu necessitava de um trabalho mental forte, internamente, para compreender isso. Venho tentando fazer o possível para ser um cara melhor neste sentido. Não é fácil, mas é recompensador ver o quanto a realidade é diferente da teoria em muitas coisas.

Aliás, a realidade é sempre diferente de qualquer expectativa. Vale a pena experimentar de vez em quando.

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Perdemos

É idiota demais querer escrever, duzentas horas após o episódio, algumas linhas sobre algo da magnitude que aconteceu hoje no Realengo. Mas sou um idiota em potencial, e não fujo disso; então, sigamos.

Estou longe de fazer parte do grupo fatalista que acha tudo que acontece hoje pior, muito pior do que o passado. Escravidão, cruzadas, inquisição, nazismo, fascismo, tudo isso já fez parte do cotidiano e tinha o apoio de muita gente, algo que não acontece atualmente. Qualquer declaração absurda de um Bolsonaro da vida tem imediata repercussão negativa – apesar de alguns o apoiarem, como ainda há nazistas, escravocatas, etc.

A estupidez é eterna, e resta a nós – que não nos achamos tão estúpidos – aprender a conviver com ela.

Da mesma maneira, psicopatia e psicopatas sempre existiram, seguem por aí e, adivinha?, vão continuar vivendo no futuro. Resta a nós, que não nos consideramos psicopatas, evitar estar por perto quando algo semelhante ao que se viu no Rio acontecer.

Não havia como evitar o (atentado? Chacina? Definam como chamar isso e me falem). Desarmamento, palavra que voltou com tudo aos debates de hoje, resolveria muito pouca coisa. Talvez ele usasse uma faca, e matasse quatro pessoas ao invés de 13. Mas e aí? Seriam quatro mortes da mesma maneira, e são as mortes, não o seu número, que chocam.

Principalmente por tudo que cerca uma escola – falando, neste caso, do ambiente ANÍMICO. Quando tu sai para trabalhar, de carro ou de ônibus, as vezes pensa (ou, melhor, eu de quando em quando penso) que um doido pode estar com um MONSTER TRUCK na rua querendo brincar de carmageddon ou algo do gênero. É um risco calculado: as ruas vomitam violência, e temos que passar por entre isso ao longo dos dias.

Mas não em uma escola. Um pai não deveria receber uma ligação, ou pior, ver na TV, que a escola dos teus filhos foi alvo da chacina de um homem só. É algo errado, roto em todos os sentidos.

E que me faz repensar se, de fato, não vivemos mesmo na pior era de todas. Um mundo de informações, de interatividade, de amizade (o meu mundo, ao menos, é assim, e é a única régua que tenho para medir as coisas), podendo ser aproveitado de duzentas mil maneiras diferentes. E a opção de um único cara extermina a vida de 12 e arrasa a existência de outros tantos.

Há algo muito errado com a gente, de fato.

Chico Luz

Vamos lá

Já perdi a conta de quantos blogs criei, pensei em criar, tentei manter e tudo mais. Comecei muitos, mas nenhum teve vida muito longa, graças à minha total falta de disciplina em fazer posts diários – ou quase isso – e, depois, por falta de vergonha na cara em dar qualquer satisfação a qualquer pessoa que por acaso acabasse lendo o que eu escrevi.

Acho que isso está resolvido – ao menos no sentido em que, a partir de agora, não vou me cobrar nem me comprometer a manter prazos; por isso mesmo (ou, ao menos, espero que assim seja) acho que desta vez não vou apenas poluir um pouco mais essa já saturada web.

Não há nenhuma proposta clara do que será escrito aqui. Não tenho uma pauta definida, e nem a pretensão de criar grandes discussões que vão mudar o mundo. Basicamente, vai ser uma plataforma para eu ampliar algo que provavelmente vou ler em outros lugares, ou discutir via twitter, etc.

Ou, em bom português: vou falar mal de Novo Hamburgo, de futebol, do Inter, de jornalismo, de Fórmula 1, de televisão, música, entretenimento em geral, livros, leituras, filmes; enfim, o típico “o que eu estiver a fim”.

E que assim seja.

Como diriam em Roma,
alea jacta est.