Normal

Passava o dia a arrumar suas coisas. Em casa, no trabalho, no carro, em restaurantes; onde fosse. Cada item no seu lugar certo e exato no espaço-tempo, cada pequeno objeto perfeitamente alinhado com tudo que houvesse em volta: o sofá na distância certa da parede, encostado de leve no tapete, que ficava a lados iguais da sacada, do restante da sala e da TV. Cada compartimento com uma missão, pela qual prezava enormemente.

Não era uma questão de mania, pois considerava-se perfeitamente normal. Podia, e frequentemente fazia isso, passar horas sem tentar aprumar o bloco que nunca abria com a caneta, e estes com o teclado, que fazia uma paralela perfeita com a borda da mesa e o monitor. Ao lado, de forma equânime, lembranças que davam um ar pessoal a algo que chamava a atenção – sem ser estranhamente perfeito – de todos que passavam por ali.

Mas sabia que ter manias, principalmente manias tão pentelhas quanto a de ajeitar guardanapos e talheres em restaurantes, ou a distância dos copos para a borda do balcão nos bares, não é algo bem aceito por todos. Aqueles com quem convivia conheciam a dedicação que dispensava a isso e aceitavam a situação; era o bastante, não precisava de mais.

E, mesmo sem considerar isso uma mania ou algo que comandava sua vida, passou a arranjar toda a existência para poder viver em paz consigo. Chegava mais cedo no trabalho, e ganhava elogios pela dedicação. Nunca perdeu o horário quando combinou de sair, e sempre tinha uma mesa ou bons lugares para sentar. A dedicação valia a pena e fazia a todos felizes, de uma maneira desimportante mas que ajudava a dar um senso de alegria inexplicável por uma pequena satisfação geral.

O tempo e a idade não mudaram nada, para mais ou para menos. Não criou novas manias, pois satisfazia-se com o que já considerava útil o suficiente. Nas pequenas coisas que deixava sem organização alguma, até mesmo isso tinha lá a sua lógica. E tudo fazia sentido.

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Les Misérables

Não sou um “devorador” de clássicos. Há muita coisa que eu já tentei ler e não tive paciência para terminar, por diversos motivos – ou a história não me atraiu, ou tive o azar de pegar uma edição ruim; coisas do gênero.

Não foi o caso com este Les Misérables. Até tive o azar de encontrar apenas uma tradução antiga na biblioteca da Feevale, de 1979, com várias coisas, ahn, ESTRANHAS – como vírgulas jogadas sobre frases como se fosse orégano em uma pizza.

Mas nada, nada disso, impediu que eu ficasse preso à história até o fim. Senhoras e senhores, que livro é este Les Misérables. Victor Hugo conseguiu contar, em 1862, uma história de redenção que, com o perdão da palavra, é imortal. A saga de Jean Valjean – desde já um dos meus personagens preferidos em literatura, herói no mesmo nível de Winston Smith e O Homem sem Nome d’O Terceiro Tira – é algo que foge à compreensão.

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