Sobre vergonha

Não assisto CQC. Já gostei do programa, mas faz tempo que não consigo achar a menor graça em quase nada do que é feito. E “jornalisticamente”, bem… alguém tratar como jornalismo algo que em cada quadro conta com os “jornalistas” fazendo anúncios de produtos me parece uma senhora piada. Enfim, não vejo CQC e, por isso mesmo, não vi a tal entrevista do Jair Bolsonaro na segunda-feira passada. Obviamente li tudo sobre a revolta causada pelo que ele disse, e depois fui ver as tais declarações em vídeo.

Não me surpreendi em nada. Jair Bolsonaro é um escroque, um pilantra, e em qualquer país sério o último lugar em que alguém como ele poderia estar é no congresso. Mas, aqui, Bolsonaro representa bem a classe política. Alguém que fala as sandices que este cidadão já disse, e continua a proferir, é o símbolo perfeito de vereadores, deputados, senadores et caterva.

Que ele seja eleito também pouco me surpreende, mesmo que isso continue sendo um absurdo. Mas aí paro para pensar no que os seus eleitores votam, e vejo que eles defendem as mesmas coisas – se sentem representados por alguém que acha espancamento em gays uma solução para “curá-los”, ou que defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso enquanto ele era presidente.

Mas é claro que a coisa não poderia parar por aí.

Pois eis que meu caro ex-chefe Flavio Gomes começou a escrever, via Twitter, algumas opiniões sobre o caso. E aí a luz que ilumina todas as mentes hamburguenses apareceu, num repente, gerando isso aqui. Leiam por si próprios os comentários, para ver até onde chega a demência.

Não vou me ater ao fato de que, ao contrário do Gomes, estou longe – diametralmente longe – de ser um socialista/esquerdista/o que seja, nem ao fato de que, provavelmente, minhas opiniões sobre economia combinem muito mais com o cara citado no post do que com meu ex-chefe. Porque não importa: se há um lado certo em algumas questões – e em algumas questões há, sim, um lado bom e um lado ruim -, o representante do Veteran NH está do lado errado, e qualquer outro ponto perde o sentido.

Mas o pior não é isso, e sim perceber que este tipo de opinião, de pensamento, tem se tornado cada vez mais comum no Rio Grande do Sul, e em Novo Hamburgo particularmente. A questão do trem – quando alguém falar em “área verde”, ouça “medo de que vileiros de outras cidades venham roubar nosso ouro” – deixa isso bem claro. E estas opiniões ganham espaço, força e viram um símbolo da cidade, mesmo que eu e, acredito, muitos outros não concordemos em NADA com atos como o de defender Bolsonaro.

A internet é algo fantástico. Para quem gosta de debate de opiniões, de conhecer lados diferentes, não há nada que seja tão revolucionário e tão capaz de proporcionar a liberdade de pensamento e de expressão. Mas é preciso que as vozes e palavras que expressam um lado certo – e como disse o Gomes, há um lado certo em alguns casos, que não pode ser questionado – soem mais alto do que o contrário.

Ou a coisa vai ficar muito ruim para todos nós.

Chico Luz

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