Normal

Passava o dia a arrumar suas coisas. Em casa, no trabalho, no carro, em restaurantes; onde fosse. Cada item no seu lugar certo e exato no espaço-tempo, cada pequeno objeto perfeitamente alinhado com tudo que houvesse em volta: o sofá na distância certa da parede, encostado de leve no tapete, que ficava a lados iguais da sacada, do restante da sala e da TV. Cada compartimento com uma missão, pela qual prezava enormemente.

Não era uma questão de mania, pois considerava-se perfeitamente normal. Podia, e frequentemente fazia isso, passar horas sem tentar aprumar o bloco que nunca abria com a caneta, e estes com o teclado, que fazia uma paralela perfeita com a borda da mesa e o monitor. Ao lado, de forma equânime, lembranças que davam um ar pessoal a algo que chamava a atenção – sem ser estranhamente perfeito – de todos que passavam por ali.

Mas sabia que ter manias, principalmente manias tão pentelhas quanto a de ajeitar guardanapos e talheres em restaurantes, ou a distância dos copos para a borda do balcão nos bares, não é algo bem aceito por todos. Aqueles com quem convivia conheciam a dedicação que dispensava a isso e aceitavam a situação; era o bastante, não precisava de mais.

E, mesmo sem considerar isso uma mania ou algo que comandava sua vida, passou a arranjar toda a existência para poder viver em paz consigo. Chegava mais cedo no trabalho, e ganhava elogios pela dedicação. Nunca perdeu o horário quando combinou de sair, e sempre tinha uma mesa ou bons lugares para sentar. A dedicação valia a pena e fazia a todos felizes, de uma maneira desimportante mas que ajudava a dar um senso de alegria inexplicável por uma pequena satisfação geral.

O tempo e a idade não mudaram nada, para mais ou para menos. Não criou novas manias, pois satisfazia-se com o que já considerava útil o suficiente. Nas pequenas coisas que deixava sem organização alguma, até mesmo isso tinha lá a sua lógica. E tudo fazia sentido.

Capitão

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A última vez que eu havia pensado no Fernandão sendo apenas o cidadão Fernando Lúcio da Costa foi há quase dez anos. Como muitos já disseram desde este sábado, ele chegou ao Internacional no dia 17 de junho de 2004, e eu lembro que, ao ser perguntado por um colega colorado no trabalho de então, disse apenas que achava que ele não era o centroavante que o time buscava – mas que era um bom nome. Eu não podia ter feito uma previsão mais errada.

Ao contrário de quase todos os colorados, eu não acordei com a notícia de que o Fernandão havia morrido. A 15 mil quilômetros do Beira-Rio, o sábado já ia longe quando, pelas 18 horas, recebi a mensagem de um amigo dizendo que ele havia sofrido o acidente de helicóptero. Não sei dizer ainda se o fato de estar longe de casa, e de saber de tudo no final de uma tarde, tornou as coisas mais fáceis ou mais difíceis. Sei que tudo parece absurdo demais depois de 36 horas.

Eu tenho uma relação bem particular e peculiar com o Internacional. É algo meio doentio, que foi se amenizando ao longo dos últimos anos em função de duas coisas: do trabalho, que me obrigou a saber deixar o coloradismo de lado em certos momentos, e do que o Fernandão fez pelo clube da minha vida nos quatro anos em que jogou de vermelho. Desde o segundo toque na bola (eu tenho certeza que ele deu um passe lateral antes de marcar o gol 1000) com a camisa do Inter, desde as primeiras entrevistas. Eu nunca mais fui o mesmo desde 16 de agosto de 2006, e este dia só aconteceu porque ele era o capitão, porque ele guiou o Inter até ali, porque ele fez o primeiro gol na goleira que estava a 150 metros de distância e cabeceou, correu para o rebote e fez um centro perfeito para o Tinga no gol do título, na minha frente, o maior momento que eu já vivi em um estádio de futebol.

Essa situação minha com o Inter, de viver o clube de uma forma única – como acontece com qualquer torcedor, que cada um tem o seu jeito de saber aproveitar o amor pelo seu clube –, tinha chegado ali ao auge. Nada antes daquilo se comparava; nada depois daquilo seria parecido. Nem o Mundial, nem a segunda Libertadores, nem as Sul-Americanas, os Gre-Nais, o título no Olímpico, nada. Nem D’Alessandro e nem ninguém. Fernandão, um bom jogador, mas nada de excepcional, foi o maior símbolo do Inter da minha vida.

E este símbolo, esse cara que não teve medo de se expor – que precisou ser substituído em uma final de Mundial de Clubes, que as vezes fazia uma sequência de jogos sem brilho porque era o capitão e, ora essa, um capitão nunca deixa o time, que foi diretor e depois treinador –, voltou a ser humano neste dia 7 de junho. A morte torna todos iguais, ídolos e admiradores, vencedores e vencidos, humanos e heróis. O que fica de diferente é o que se fez durante a vida. E nisso, Fernandão vai durar para sempre.

Obrigado por tudo, capitão.

De dentro do Reino do Meio

(entre sair do jornal, arrumar tudo para ir embora, viajar e depois chegar no destino, lá se iam dois meses sem escrever nada. É tempo demais. Por isso, enquanto ainda não chega a fase de fazer jornalismo mesmo, era hora de tirar todas as teias de aranha deste abandonado sítio e voltar a praticar alguma coisa. Por que não, afinal? Aos poucos, a casa vai sendo arrumada. Espero que alguém goste)

É impossível resumir um país em apenas uma cidade, e portanto não é da China que este texto trata. Mas, sim, de como é a China em Dongguan: uma cidade de 8 milhões de habitantes, absurdamente grande para os padrões de quem saiu de Novo Hamburgo, apenas o sétimo centro urbano mais populoso do Reino do Meio. Um lugar que me permitiu, pelas peculiaridades da vida, conhecer uma realidade que só é possível de se viver quando se fica bastante tempo num lugar, vivendo, morando, vendo a vida sem a pressa de precisar correr para conhecer tudo de uma só vez.
Dongguan, a minha representação de China, é um dos lugares mais contrastantes, hipócritas, bonitos e legais que existem.

O contraste – e a hipocrisia, sua prima distante – me parecem ser marcas registradas deste país tão grande. Porque é impressionante demais ver a ordem de tudo, as praças lindas, o comportamento em geral ordeiro e respeitoso da população, e depois perceber que isso funciona para o que é público. A imagem que a China passa é de um imenso respeito com tudo que for de todos, e de um desprezo geral por qualquer tipo de individualidade. Os parques são impecáveis de tão bem cuidados; os apartamentos, em geral, são deixados aos pedaços. Não se tem notícia, tirando alguns fatos isolados, de qualquer tipo de violência em roubos ou coisas do gênero; também, não se tem notícia de nada: não se vê jornal nem revista nas ruas, nem mesmo programas de notícias, ao menos nos espaços abertos. E o furto come solto por aqui.

Mas é a hipocrisia a parte mais marcante do que se vê da China em Dongguan. Porque, ao mesmo tempo que desprezam o indivíduo e mostram um orgulho tremendo da sua história – o que faz sentido –, os chineses daqui buscam cava vez mais ser parecidos com o que de mais extremo existe no Ocidente. Porque não basta ter um Porsche: ainda tem que pintar ele com algum verde-metálico como se via nos Chevette tubarão de 1976, e andar a milhão com o carro de uma maneira tão bárbara que é impossível descrever. É preciso se comportar e se vestir de forma cada vez mais ocidentalizada, deixando apenas a aparência e os olhos puxados como prova de que não se está em qualquer outro lugar do mundo. A hipocrisia de um país que regulamenta com mão de ferro o que se diz, se escreve e se mostra, que proíbe o acesso a Facebook e Twitter. Só que todo mundo vê Facebook e Twitter, todo mundo faz compras no 7-Eleven, na HM, na Zara, e pode escolher entre um dos 35 bancos diferentes apenas nesta cidade para abrir a sua conta, o que não me parece o melhor exemplo de socialismo aplicado na prática.

O capitalismo aqui é feroz, e tem os mesmos benefícios e malefícios que em qualquer lugar do mundo. A gama de coisas que existem é tão grande que, sim, os preços são realmente bons em muitas coisas. Mas os chineses sabem segregar quem for diferente tão bem – ou até melhor – que o cara mais higienista do Ocidente. E, cada vez mais, eles fazem isso baseado no mesmo materialismo que nós já estamos acostumados.

Mas, mais do que tudo, este é um lugar incrível. A chance de passar um mês em uma cidade desconhecida, mas na casa de alguém que mora aqui há três anos e conhece cada canto do lugar – e este alguém ainda ser teu pai – dá toda uma perspectiva nova de uma cidade, que nenhum tipo de turismo no mundo é capaz de reproduzir. E faz com que, depois de duas semanas, o trânsito já nem pareça tão maluco, e que até mesmo tu consiga atravessar um cruzamento sem nenhuma ordem de bicicleta, depois de 15 anos sem nem subir num selim. Faz com que tu caminhe pelas ruas procurando os exemplos daquela China idealista, dos caras de túnica e os joelhos dobrados para fora nas bicicletas, e ainda ache alguns poucos resistentes. E, mais importante de tudo, faz com que a gente tenha tempo para, depois do entusiasmo dos primeiros dias e do choque que vem na sequência, do ‘oh, como eles são diferentes e meio bárbaros’, aprender a respeitar e admirar cada um dos traços, dos contrastes, das hipocrisias, para achar tudo muito legal.

Para quem está ainda no caminho de morar fora de casa e buscar toda uma rotina de vida em outro país, é muito bom poder contar com uma experiência como essa logo na véspera de ir.

E se Dongguan já é tudo isso e é tão massa, mal posso esperar para, um dia, ver como é o resto da China.

Xiexie,
Chico Luz

Ich bin ein berliner


O momento que eu mais gostaria de ter presenciado ao vivo (Reuters)

Não tenho plena noção de quando foi que comecei a me interessar por história. Mas sei, com profunda convicção, que foi neste momento – provavelmente no auge dos meus 4-5 anos, envolvido pelas notícias que falavam do fim de um mundo como era conhecido e do surgimento de uma nova ordem – que a Alemanha “entrou” na minha vida. E, desde então, nunca houve um lugar que eu quisesse tanto conhecer como a capital germânica.

Entrou está entre aspas porque, nascido e morador de Novo Hamburgo, o ETHOS alemão sempre esteve presente. Não apenas pela colonização, que se não se faz notar tão fortemente nesta vilipendiada cidade, continua sendo parte integral e cultural de muitas famílias. A minha, que nem ao menos convivia com a linguagem, tinha muito do TEDESCO, continua e continuará tendo.

Sei que, desde a primeira vez que ouvi falar no Muro de Berlim, e no fato de que uma cidade era dividida entre dois países por uma parede, sempre tive enraizado o sonho de conhecer este lugar, desbravar tudo que pode ser visto na fronteira de 40 anos entre ocidente e oriente, entre capitalismo e bolchevismo. Foi por Berlim, pela Alemanha, que eu devorei um Almanaque Abril 1983 oito anos depois. E foi por isso que, no final das contas, eu escolhi ser jornalista.

Mais do que a história presente em cada esquina da cidade, e que faz parte da História que eu sempre fui apaixonado desde guri, me intrigam todos os fatores cruciais que levaram um país como a Alemanha a seguir o caminho que seguiu em 1933. É algo que sempre me torturou, de uma maneira até cruel as vezes, e fez com que eu fizesse uma frágil promessa pessoal: “estarei aí.”

Pois a hora de honrar minha palavra com o guri que eu fui aos 6 anos chegou. Em outubro, Berlim estará na minha mira. Antes disso, vou poder conhecer Paris, Amsterdam e, depois, Munique e Lisboa. Mas que eu nunca esqueça: se eu decidi gastar um dinheiro que não tenho, e planejar como um doido algo que poderia muito bem ser melhor aproveitado em outras épocas ou outros lugares, é por Berlim.

Estarei aí.

Chico Luz

Demência demais – ou genialidade demais

Um dos meus sonhos frustrados é ainda não ter saltado de paraquedas – sendo os outros não ter me tornado um ALPINISTA e nem ter participado de nenhuma VIAGEM ESPACIAL. E, como paraquedista frustrado, fico sempre meio TRANSTORNADO e EM CHAMAS quando vejo vídeos de gente GRACEJANDO nos ares.

Como o Jeb Corliss fez aqui:

Jeb Corliss wing-suit demo from Jeb Corliss on Vimeo.

Abraços,
Chico Luz

Carreras son carreras

Podem criar a regra que for na Fórmula 1. No fim, o que determina se as corridas serão boas ou não são as pistas, os pilotos e as condições do tempo. Aí está o GP do Canadá que não me deixa mentir: um circuito sensacional, que não perdoa erros, frequentado por caras que estão MUITO acima da média de grids passados, e ainda contando com uma chuva federal para bagunçar tudo.

Não é à toa que, em provas assim, o talento puro se sobressai à velocidade bruta. Jenson Button, um cara capaz de conduzir um tanque com pneus carecas de Uno durante uma tempestade, superou punições, toques, pneus furados, seis pit-stops – e, provavelmente, ainda fez algum TRUQUE DE CARTAS (ns) – nas quatro horas de prova para vencer em Montréal. Depois, ainda ganhou um beijo da JESSICA MICHIBATA. O rapaz é foda.

Mas do Button todos vão falar, já que uma vitória conquistada na última volta – e ainda mais na corrida mais longa da história – é algo que fica para a história. O que pode se perder no futuro é o que fez Michael Schumacher: os sete títulos que contemplam o mundo do alto dos 41 anos do alemão foram colocados à prova hoje, com uma atuação espetacular. Fazia tempo que eu não via alguém com tanto TESÃO em um GP, e estava sinceramente torcendo por uma vitória do TEDESCO.

Isso que ainda teve Kobayashi mitando na chuva, Petrov, Di Resta, Alguersuari voando, Massa em alguns momentos inspirados e outros nem tanto… uma prova sensacional, que fica ao lado de GPs como Alemanha/2000, Inglaterra/2002, Europa/2007 e Brasil/2008 como das melhores corridas dos últimos anos.

O que o Canadá também mostrou é que o regulamento novo – que eu até havia ELOGIADO, mind you – pode ser uma bela merda. Ou, pelo menos, é algo completamente artificial e desnecessário. O GP foi perfeito e disputado sem a necessidade de asas móveis e com pneus que se comportaram com algum tipo de DECÊNCIA, e foi só voltarem a liberar o famigerado DRAG REDUCTION SYSTEM para virar uma putaria de ultrapassagens sem graça alguma. Se não houvesse o DRS, Schumi, Webber e Button brigariam apenas no braço até o fim. O resultado final poderia até ser o mesmo, mas PARA MIM seria algo muito mais AFUDÊ de se ver.

O que vale, mesmo, é ter pistas boas, pilotos bons e um clima insano.

Ou, em resumo: talvez aquela ideia do Bernie de um BOTÃO DE CHUVA não fosse algo tão absurdo assim.

Abraços,
Chico Luz

Um time que cai

Uma semana pode ser muita coisa para um time de futebol, para o bem e para o mal. O Internacional conseguiu, nos últimos sete dias, transformar todas as pretensões de um ano na expectativa de amargas decepções.

E, como sempre, o caminho correto é o do meio: nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

A derrota para o Peñarol foi inesperada – não pelo Peñarol, seu time, sua história e a camisa mais linda e pesada da América do Sul – mas pelo próprio Colorado, que tratou de colocar por terra toda a minha teoria desenvolvida no post anterior. Um time que se abateu com um gol, que sofreu por não se acalmar, e que desde então (e lá se vão sete longos dias) não mais se reencontrou em campo.

Claro que perder um Gre-Nal em casa, após cair na Libertadores, sempre forma o terreno PROPÍCIO para uma terra arrasada sem precedentes. Mas não é o caso AINDA: a situação de hoje se parece muito com o que foi visto no Internacional em 2008, quando da queda na Copa do Brasil e, logo depois, da saída de Abel Braga. Uma espécie de MINIRECONSTRUÇÃO, que já começou com a chegada de Falcão, e que ainda depende de trabalho feito longe dos jogos.

Ou: treino, treino e mais treino. O Inter não treinou nos últimos dias, e ao menos agora (o ponto positivo de uma situação bem ruim) tem um pouco de tempo para pensar no Brasileiro. Time, elenco, material humano existe. Se as ideias forem corretas, quem sabe, depois de 32 anos, o Brasil não volta a ser colorado de novo.

Quem sabe…
Chico Luz